THELMA E LOUISE - ABAIXO DOS TRÓPICOS

Um blog de duas doidas...

29.7.07

A TRANSITORIEDADE DA VIDA E A SUPERFICIALIDADE DOS SENTIMENTOS

by Nívea Ferraz
em 29 de julho de 2007
Tem uma coisa que sempre ocupa minhas preocupações e meus pensamentos, e que eu acho que é questão fundamental da vida: a brevidade da existência, a temporalidade, a impermanência do ser... questão angustiante, da qual não podemos e nem devemos fugir. A visão que eu adotei para encarar essa questão é a visão filosófico-religiosa do espiritismo. Mas isso nem vem ao caso.

Dia desses eu visitei minha avó no lar de idosos onde ela se encontra. Vê-la ali, naquela fragilidade, e ver aquelas outras pessoas, me faz retomar essas questões. Minha avó sempre foi uma mulher inteligente (uma boa geminiana!), voluntariosa, geniosa. Era uma verdadeira matrona, controladora da vida do marido e dos dois filhos, assim como a dos irmãos e parentes mais próximos. As noras não tiveram muito refresco com ela não, minha mãe que o diga! Mas com milhares de defeitos, que todos nós temos, foi boa mãe e boa avó. Fico triste de vê-la como está, abandonada pela família, sem o seu lar, o marido, sem a vitalidade do corpo ( porque a do espírito continua intacta, mesmo tendo passado por tantos dissabores - isso aumenta a minha admiração por ela!). Olho também para os seus companheiros ao redor, um foi aviador, a
outra, argentina, era antropóloga. Todas essas pessoas um dia foram jovens, alguns foram belos (minha vozinha foi e ainda é!), outros tiveram dinheiro, e hoje, se possuem lucidez, já estão no lucro... essas são coisas que costumamos não pensar, geralmente até evitamos. Mas a verdade é que todos (se a morte não nos encontrar ainda na juventude) passaremos por essa fase. O corpo perderá o viço e a vitalidade, a mente pode se perder em devaneios...

Se for parar pra pensar, a gente muitas vezes não precisa esperar a velhice para perder a beleza, a saúde, as plenas faculdades. Qualquer um de nós, a qualquer momento, pode sofrer um acidente e ficar deformado ou inválido. E sabe o que é mais duro? Pensar que você pode não ser mais alguém "desejável", socialmente, sexualmente... porque todos, inevitavelmente, nos preocupamos e nos incomodamos o que os outros pensam de nós, com a forma pela qual nos vêem, nos conceituam. Em suma, queremos ser aceitos, considerados, admirados, amados.

Eu não sei se todo mundo faz isso, mas eu costumo me transportar para determinadas situações, e tentar sentir como seria minha vida se determinada situação, boa ou ruim, acontecesse. Talvez seja um pouco de masoquismo psicológico, mas eu às vezes fico imaginado como seria a minha vida se eu ficasse deformada e inválida. Sei que teria o amor e o apoio da minha família, mas de qualquer forma, só o fato de precisar das pessoas para as necessidades básicas deve ser algo brutalmente difícil. Socialmente não seria mais desejável; por mais que se fale hoje de inclusão, aquela coisa do "ser diferente é normal" - o que eu acho muito bacana - o caminho para a
plena aceitação das diferenças ainda é longo. Perder a beleza, a atratividade, então, deve ser muito duro. Porque (no meu caso) quando se é mulher, jovem, magra, "ajeitadinha", a gente se acostuma a ouvir elogios, a atrair olhares.

Agora eu me lembro daquela música da Alanis Morissete, que por sinal eu nem gosto muito, mas a letra é interessante, e tem tudo a ver com essas coisas que eu estou falando:

"That I would be fine even if I went bankrupt
That I would be good if I lost my hair and my youth
That I would be great if I was no longer queen
That I would be grand if I was not all knowing
That I would be loved even when I numb myself
That I would be good even when I´m overwhelmed
That I would be loved even when I was fuming
That I would be good even if I was clingy
That I would be good even if I lost sanity
That I would be good whether with or without you"

É por tanto pensar nessa questão que eu não consigo ver sentido nas coisas que a maioria das pessoas vêem. Não consigo achar que ocupar determinado cargo, ter uma casa assim ou um carro assado, ser belo e bem vestido possa fazer de mim mais feliz, porque simplesmente isso tudo é uma grande ilusão. Ter uma roupa da grife tal, ter colocado silicone nos seios, não fez a menor diferença na pessoa que eu sou e nas coisas que eu penso. Eu não sou as coisas que eu tenho, nem o corpo que me reveste. Mas o que realmente dói na alma é pensar que as pessoas enxergam umas às outras, como a si mesmas, dessa forma completamente superficial. E que os
sentimentos, muitas vezes são puramente determinados por essa visão míope do ser humano, e da vida.

4.6.07

REFLEXÕES DE UMA PSEUDO-PSEUDO-PSEUDO... TEÓRICA (OU DE UMA FILHA-CORUJA) SOBRE EDUCAÇÃO

By Nívea Maria
Em 04 de junho de 2007.

Falar sobre educação pra mim é algo significativo. É um tema que me comove, talvez porque eu seja filha de uma educadora apaixonada, aficcionada, quase fanática pelo seu ofício; talvez porque eu mesma tenha dentro de mim esse germe (ou gene ,rs). Como quase todas as meninas, pelo menos da minha época, eu também desejei ser professorinha. Já na adolescência, passei por uma fase de horror à educação. Hoje, já não tenho aquele horror, mas sinto que ser professor é tarefa para os fortes, ser professor de ensino fundamental é médio da rede pública, nesse nosso país, então, é para os missionários, para as almas que estão se candidatando a santas. E eu ainda me vejo covarde demais para ser missionária ou mártir.
Mas eu confesso que tenho um fascínio pelos educadores. Minha mãe é um exemplar de educadora profundamente envolvida com o seu trabalho. Ela dá aula para os pequenininhos, num CIEP de uma comunidade em Paciência. Ela sempre chega em casa contando mil estórias, algumas engraçadas, outras bem tristes, sobre seus alunos. Aliás, a minha mãe sempre fala sobre trabalho, o tempo todo, seja com quem for. É claro que às vezes as pessoas ficam um pouco de saco cheio; mas eu admiro o tesão que ela tem pelo trabalho dela, mesmo com tantas desilusões, que lhe custam uma pressão somente controlada a base de remédios.
Eu gosto de ouvir os "causos" dela, porque sempre me fazem pensar muito. Me bate aquele incômodo, aquele pensamentozinho renitente e dolorido: mas será que isso tem jeito? Como podemos mudar essa realidade? Como é que se pode trabalhar nessas condições? Essas idéias às vezes me torturam.
Uma coisa costuma me aborrecer é quando leio a opinião de alguns teóricos que, no alto de sua visão (teórica) distanciada da realidade, apontam todos os erros do sistema educacional desse país e sugerem como solução o "exemplo coreano", ou o francês, o holandês, sei lá... como se cada país, cada sociedade, cada grupo não tivesse suas particularidades. Mesmo no nosso país, falar em "problema da educação" soa estranho, porque cada região, cada sub-região, cada periferia desse imenso país tem seus desafios. Dizer simplesmente que o fracasso da educação no Brasil está atrelado à pobreza é generalizar, e por isso, omitir certas realidades. Aliás, a educação em nosso país não é só feita de fracassos. Tem muita cosa boa sendo feita, e dando certo. Mas nem quero fica me prendendo a casos que eu conheço só de ler em jornais ou revistas. O que eu conheço, e mesmo assim um pouco, é a realidade do ensino público nas escolas do Rio de Janeiro, essa nossa cidade maravilhosa, mas cheia de desencantos. Fazendo um pequeno resumo, e obviamente simplificando o que é bastante complexo: temos escolas sem infra-estrutura, professores despreparados (mas que isso não seja visto como pura crítica aos educadores - alguns, obviamente são pouco aptos à atividade que exercem, mas muitos são plenamente aptos - é apenas uma constatação de que a realidade é tão dura e complexa, que ser "preparado" para enfrentá-la é praticamente uma missão impossível), salas de aula abarrotadas (o que dificulta, e muito, o trabalho dos professores), alunos que convivem com uma realidade de exclusão social e violência, muitos com seriíssimos problemas familiares e históricos de abusos e explorações, e um governo que historicamente sempre esteve omisso a toda essa realidade, que paga muito mal os profissionais da educação, e que no fundo, sabemos, bem que deseja que as coisas continuem exatamente como estão. Porque é mais fácil que a população viva na ignorância e carente de recursos básicos, assim nos períodos de eleição nossos excelentíssimos candidatos poderão continuar fazendo suas promessas e distribuir suas esmolas em troca de votos.
Eu somente acredito no crescimento desse país quando todos tiverem direito à educação, e principalmente, quando, individualmente, cada um tenha consciência da importância da educação na própria formação como ser humano e cidadão, assim como na formação das gerações futuras. Sei, porem, que enquanto ainda se luta para colocar o pão de cada dia dentro de casa, ou ainda, quando o desejo de ser aceito socialmente via poder de consumo for a grande meta humana, fica praticamente impossível delegar a devida importância à educação. O desafio é gigantesco, exige mudanças nas condições de vida das pessoas, e também, nas mentalidades dos indivíduos.
Enquanto isso eu peço a Deus que dê forças e coragem aos atuais e futuros educadores para que não desistam da sua bela e árdua tarefa. Porque a frustração e a sensação de impotência convive com essas pessoas, mas o importante é ter sempre aquela paz interior, a consciência tranquila de saber que está fazendo o melhor que pode, e que os frutos que poderão render desse trabalho, muitas vezes serão colhidos num futuro, talvez um pouquinho longínquo... o que importa é jamais perder o ideal.
Valeu, mãezinha!

28.2.07

REFLEXÃO DE CARNAVAL by Nívea Ferraz

Esse ano nem quis saber de Carnaval. Pra quem tinha planos de até desfilar em escola de samba, meu Carnaval foi dos mais chochos. Aliás, não fui só eu que brochei na hora “H”; minha amiga e sócia neste espaço virtual, ao que me consta, também resolveu ficar longe da folia e pertinho da cama, rs. Carnaval sonolento esse nosso, hein minha amiga?

Pois bem, mas se o corpo descansou, a mente não parou; aproveitei pra ficar na minha toquinha, e pra não dizer que não saí, peguei uma prainha na terça, e mesmo assim, fui no carrinho do papai; e pensei, pensei, pensei. Pensei no meu atual problema amoroso, pensei no aquecimento global, e acima de tudo, pensei na violência que assola esse país, mais especificamente, no caso do pequeno João Hélio, que me chocou profundamente. A violência a pessoas indefesas, como crianças e idosos, me abala pessoalmente, por ter vivido um drama como esse na minha própria família, há uns três anos atrás. Como ser humano, passional que sou, minha primeira reação foi sentir muita raiva dos monstros que martirizaram o menino. Confesso que num primeiro instante pensei que eles deveriam morrer, de forma brutal e dolorosa... mais tarde, menos envolvida pela emoção, defendi a prisão perpétua para os assassinos; nem foi por bondade de minha pessoa (longe que estou de ser alguém verdadeiramente bom), ou pela minha crença religiosa ( eu sou espírita, e os espíritas são terminantemente contrários à pena de morte, assim como a eutanásia, o aborto e o suicídio); foi simplesmente porque concluí que a morte não é, por si só, castigo pra ninguém.

Durante esse tempo, ouvi muitas opiniões que discordei, algumas considerei imaturas e outras hipócritas. Ouvi muita gente dizer que o problema era social, e até defender os pobres coitados dos marginais(!!!). Confesso que fiquei bastante irritada. Esse determinismo sócio-econômico é profundamente irritante. É claro que no nosso país existe um abismo social gigantesco, que arrasta toda uma massa de jovens sem perspectiva para o mundo da criminalidade. Mas crimes hediondos como esse não são cometidos apenas por pobres marginalizados pela sociedade. E a maioria das pessoas pobres são dignas, não cometem crimes. Acho que explicar a maldade humana somente por esse ângulo denota, no mínimo, ingenuidade. O ser humano NÃO é simplesmente um ser social; temos sim uma dimensão biológica, uma psicológica, e também uma dimensão espiritual.

Outra que eu ouvi, e que não posso deixar de comentar: crimes bárbaros contra crianças, inocentes de uma forma geral, ocorrem todos os dias nas nossas favelas; crianças africanas morrem diariamente de fome. Sim, isso é um fato, terrível, diga-se de passagem. Deveríamos ser mais sensíveis e menos alienados dessa realidade. Mas não podemos, não devemos e nem conseguimos deixar de nos comover com esse caso que ganhou destaque na mídia. Se podemos dizer que essa tragédia “serviu” para alguma coisa, foi justamente para nos fazer enxergar que existem outros Joões, pretos, brancos, ricos, pobres...

Certamente o caso do João mexeu mais fortemente com as nossas emoções por ser ele um menino da classe média carioca, que poderia muito bem ser um filho, irmão, primo, meu ou seu... a gente sempre se sente mais tocado quando a tragédia está próxima de nós, não dá pra negar. A dor é mais profunda quando acontece com um dos nossos. Dizer o contrário é hipocrisia, afinal, estamos ainda longe da angelitude; não somos seres sublimes, capazes de amar a tudo e a todos igual e irrestritamente.
A verdade é que todos os dias, em todo o mundo, milhares de inocentes são martirizados e ninguém se dá conta disso. O pequeno João foi, infelizmente, um Cristozinho que nos fez acordar, ainda que momentaneamente. O mais triste é saber que ele não foi o primeiro, e também não será o último.

(RJ, 28/02/07)

21.1.07

SUA VIDA É SUA? - by Manuzinha

Você já se pegou cansada de tudo: cansada de casa, cansada dos seus livros, cansada das suas roupas, cansada dos seus sapatos, cansada do arroz com feijão, cansada das pessoas que te dão ordens, cansada das pessoas que não te dão ordens... Já se pegou cansada da sua vida?
Pois eu vou confessar que me pego assim todos os dias. Parece que reservo um cantinho do meu dia para ficar insatisfeita e pensar no que anda de errado.
Sempre fico pensando como vai ser no ano que vem, faço planos para o outro ano, e para o outro. Acho que gasto minha vida mais no futuro do que no presente!
Se eu parar para pensar no que estava fazendo no dia 21 de janeiro de 2006.... Hum, se não me falha a memória estava planejando como seria o dia de hoje.
E vou falar que não aconteceu nada do que eu imaginava.
Não planejei que estaria chovendo.
Não planejei que estaria saindo da tensão de imaginar a morte da minha avó.
Menos ainda planejei que sairia de casa para sacar noventa reais da minha pobre conta no banco e gastar parte deles pagando almoço para outras pessoas.
Não planejei comer arroz com repolho roxo, beterraba, cenoura, ovo de codorna, duas coxinhas e milho (sempre ele me fazendo companhia na hora do almoço).
Não planejei passar o resto da tarde no computador gastando meu tempo com coisas inúteis, e chegar de noite com dor de cabeça.
Não planejei ficar com raiva.
Não planejei brigar e me reconciliar com um amigo especial que ainda não entendeu que é só isso.
Não planejei insistir no mesmo assunto e arranjar mais uma briga dentro de casa.
...
Pra falar a verdade, acho mesmo é que meus planos incluíam um namorado, um almoço legal depois de uma caminhada num lugar bonito. Um banho, um cinema, uma pizza, andar em qualquer lugar vendo qualquer coisa do lado dessa pessoa...
Meus planos incluíam ganhar mais e trabalhar menos.
Talvez a Mega sena me ajudasse com isso!
Incluíam ter lido mais livros todo o ano passado e estar refletindo sobre eles nas horas vagas de hoje.
E aliás incluíam tentar não ter horas vagas!
Viu só, meus planos não incluíam minha casa.
Mas porque será? Minha casa é legal.
Não é grande, mas serve para os objetivos que lhe cabem. Meu quarto está ficando cada dia mais com a minha cara. É certo que não gosto do banheiro; acho que a louça azul parece de boteco de quinta categoria. Mas ainda assim os outros espaços compensam.
E como pode, ainda assim meus planos de um ano atrás não incluíam a minha casa!
Talvez seja porque ainda não experimentei a sensação do “MINHA” casa. O pronome possessivo não me cabe! Aliás, tenho a impressão de que poucas vezes experimentei usá-lo quando de fato ele cabia.
Minhas maiores felicidades aconteceram quando eu pude fazer ou ter algo meu, feito ou comprado por mim, com o meu trabalho ou meu dinheiro.
Minha casa é de quem paga por ela. Essa pessoa manda; ela decide o que é certo ou errado, ela diz o que pode ou não pode, ela dita as regras...
Minha casa é dela!
Opa, minha casa não é minha...
E pensando pelo mesmo raciocínio de que as regras não sou eu quem faço, e apensas as cumpro, acabo de perceber que minha vida também não é minha. Parece que nada do que vivi até hoje é meu. Talvez por isso esteja tão cansada desta vida (já entendi que ela não é minha), tão irritada com tudo isso, embora ao mesmo tempo coisas boas aconteçam... Não consigo colocar o foco no que há de bom, porque o que está ruim sempre me consome mais.
Acho tudo muito chato porque não sou eu que faço, não sou eu que decido, embora seja eu que agüente as conseqüências.
Pois então, para 21 de janeiro de 2008 não vou planejar homem, nem comida, nem lugar, nem caminhada...
Quero simplesmente ganhar (ou me dar) de presente minha vida!

17.12.06

DIVAGAÇÕES... by Nívea Maria

Desde que me entendo por gente dou de estranhar o mundo, as pessoas. Acho que quase todo mundo já teve essa sensação, mas pra mim ela é muito recorrente; de que aquilo que você está vivendo num determinado instante não é real, parece um sonho, sei lá... tive essa sensação em várias ocasiões, em casa, na sala de aula, em festas e outros eventos sociais. Estou conversando, normalmente, e daí eu começo a olhar ao meu redor, para as pessoas e não reconhecer aquilo tudo como real; entro num estado de quase transe. É muito esquisito. Mas ultimamente eu tenho tido uma percepção muito forte de que nada do que eu estou vivendo de fato é real. Será que estou ficando louca? Pode ser... só que agora eu não fico nesse estado catártico ou de semi-transe. A sensação é constante. Na verdade, ela é bem desagradável, pois eu não deixo de questionar tudo e todos. Acho que o meu senso crítico anda nas alturas... rs... meio confuso, né?
Bem, o que acontece é que eu estou com um olhar bastante desencantado diante da vida. Sabe quando você acha que tudo ao seu redor é falsidade? Que as relações socias não passam de teatrinhos, e dos mais furrecas... muito incômodo isso, porque, de uma forma ou de outra eu também faço parte desse "elenco", e me pego "atuando" como todo mundo. Tem horas que dá vontade de fugir dessa encenação toda, mas no fim você percebe que não dá. O que resta é continuar o show.
E no fim das contas, só o fato de eu estar aqui escrevendo isso e pensando em publicar no meu blog já indica que eu pretendo continuar a grande encenação da vida. Me lembrei agora daquele filme com o Jim Carrey... como se chama mesmo? "O show de Truman". Estou me sentindo meio como o Truman quando ele descobre que a sua vida é uma novela, que ele não passa de um personagem numa trama elaborada e controlada por alguém, e que cada acontecimento de sua vida é acompanhado e até mesmo planejado de acordo com os desejos dos expectadores.
O que sempre resta é se readaptar ao personagem e seguir em frente, não temos escolha. Mas lá no fundinho ainda nutro a esperança de um dia encontrar um lugarzinho especial onde eu possa ser eu mesma e as pessoas também sejam elas mesmas, e tudo seja "de verdade". Vai ver que esse lugarzinho está dentro de mim. Dentro de cada um de nós.
(Em 16 de dezembro de 2006)

26.11.06

POESIAS E PROFECIAS DAS NOITES- by Manuzinha

Dia bom...
Noite boa...
Surpresas...
Noites brancas, almas brancas...
Lições de vida de desconhecidas... Aliás, não mais tão desconhecidas assim.
Gente nova... Que também já não é mais nova, mas que continua sendo gente boa; que entra pra nossa memória; que a gente quer que continue.
Andar reparando na vida dos outros, e fingir que se está fazendo antropologia!
Teatro de rua. Música de rua. Miséria de rua.
Gente de rua. Gente na rua.
Nós também estamos na rua.
E é bom estar na rua. É quando vemos o que acontece.
...
Um anjo descendo do prédio por uma bandeira do Brasil.
Bênçãos muitas!! Muito axé para todos nós...
Bolas brancas caindo para clarear a noite escura...
Um mendigo agradecendo uma senhora por ganhar uma das tais bolas. Fui testemunha desta cena.
Conversa no metrô com desconhecidos que não podem revelar suas identidades por questões éticas. Sim, alguém ainda conhece o significado desta palavra!
Cachaça, gelo, açúcar e limão. Sacode, sacode, sacode.
“Pronto, senhora!”
Gente olhando a dança dos outros.
Gente dançando para os outros.
Gente dançando para um outro.
Licenças poéticas!!
Mistura de gentes, de raças, de sotaques, de identidades. Mistura boa.
Ônibus corrido, sem saber bem para onde se vai.
Sorriso meio de lado, meio cansado, mas que resume o que se sente:
“Porque parou, parou por quê?”
Queijo de coalho a R$1,50.
Reencontro da nobre senhora que tem muito a ensinar, com as jovens meninas com muito a aprender.
Aprendi muito.
Com ela, com cada pessoa que cruzou comigo, e sozinha.
Voando alto na van, volto pra casa com o pensamento nos ares, sem sair do trajeto castelo- linha vermelha- casa.
Vista do Fundão.
“Quase lá.”
Mc Donald's.
“Se der pra parar um pouco antes do próximo ponto, eu agradeço.”
“Boa noite.”
Em verdade acho que deveria ter sido bom dia.
Conhecidos novos lugares, novos movimentos; aprende-se a falar, ou pelo menos a pensar um pouco mais sobre eles.
É na rua que nos inventamos. Que somos o que queremos ser.
Mas ainda assim somos nós.
Talvez um outro lado que descobrimos a cada ida à rua.
E que, aliás, podemos reinventar.
Mas não havia invenção ou reinvenção. Talvez descoberta.
Era eu mesma!
Com o mesmo axé forte pra maluco.
Com a mesma vontade de estar ali.
Com as mesmas roupas de sempre.
Com o mesmo “será que é comigo?” em mente.
Torcendo pro tempo não passar, e pra noite não acabar.
Porque afinal noites brancas são raras.
Então não conheci só lugares novos e novas pessoas, mas antes disso me reconheci! Porque descobri que sou cada uma daquelas pessoas; e estou presente em cada uma também.
Que venham outras noites, de todas as cores, com todos os cheiros, e todos os sabores...
Noites poéticas. Noites proféticas.
Onde se vê como o povo é rimado, ainda que tão diferente.
Noites coloridas, almas coloridas...
Noites de todos!

22.11.06

UMA RAPIDINHA


Ontem eu disse pra minha nobre companheira que nada do que aconteceu viria parar aqui... Mas aí ela concordou! Assim não dá, descobri que eu nasci mesmo pra ser do contra!!!
...
Mas enfim... Não direi nada de comprometedor!!!
Show da Beth Carvalho e Orquestra Imperial.
Fomos para conhecer a Orquestra. Eu porque nunca tinha visto, e ela porque não tinha conseguido ver da vez que tentou... rsrsrs... Pedro Neschling tava melhor, e o álcool no sangue!!
Não sei quanto a ela, só sei que eu voltei para casa sem conhecer a Orquestra! E para falar a verdade nem vi nada de ruim nisso!! :-)
Vale o registro de que foi uma noite muuuuuuuuuuuuuito foda.
Com direito a todos os amigos juntos, coisa rara por sinal; passeio de bondinho, com vista do Rio de Janeiro à noite, por R$0,60; grito do alto dos Arcos; sambinha de graça; coreografia a la coisinha de Jesus; vontades sanadas; e felicidades muitas...
Não tinha como não registrar...
Valeu por todos os que estiveram lá!!
E quanto a nós Nivita, ainda conheceremos a Orquestra!! :-P

17.11.06

CURSO PARA ENGAVETADOS -by Manuzinha

Curso de “Teoria Queer – cultura, gênero, sexualidade e diversidade”.
Há quase um mês comecei este curso. Com que objetivo? Bom, vamos lá... Digamos que no 6º período da faculdade de Ciências Sociais, pretendendo especialização em antropologia, sem nenhuma perspectiva de trabalho (decente e bem remunerado, por assim dizer), acho que o desespero começou a bater. Pensei que já era hora de escolher um tema para pesquisar, iniciar a tal pesquisa e tentar publicar alguma coisa, optar por uma instituição para tentar mestrado; enfim, um rumo para seguir para tooooooooodo o sempre (ai que medo)! Vá lá, depois de meses e meses seguidos de muita reflexão, resolvi estudar prostituição, ou melhor, prostitutas –sim, mais um trabalho sobre identidade social, JESUS ME SALVE!- decidi também que o Museu Nacional e o CLAM são minhas opções para seguir em diante.
Eis então que um belo dia de sol entro na faculdade e encontro o anúncio deste curso pregado no mural do elevador. É, confesso que não fazia a mais vaga idéia do que fosse a tal da “Teoria Queer”, mas o subtítulo valeu por todo o resto. Caí nessa e resolvi fazer porque, de repente, poderia ser interessante para pensar no meu tema. Segui-se então o recrutamento cuidadoso de uma amiga (coitada, participou do efeito dominó da enganação), vi o preço, local e tudo mais. Nos inscrevemos. Alguns dias de ansiedade me separavam da tal “Teoria Queer”. Legal! Chegou a hora, fomos ao lugar, pagamos, pegamos o material do curso (uma pasta, uns folhetos explicativos, seis camisinhas masculinas e uma femininaà é impressão minha ou para eles mulher trepa menos??), sentamos e ficamos esperando o palestrante. Na falta de coisa melhor para fazer, fui ler os folhetos que vinham dentro da pasta.
Daí por diante as coisas degringolaram de vez. Pra começar o curso é promovido dentro do “Projeto Lésbicas do Rio de Janeiro”. Não que este seja o problema! Sem preconceitos (não por que é feio, mas porque eu realmente acho ridículo “pré-conceitos”; e quem me conhece de verdade bem sabe que estou longe de ser alguém preconceituoso), mas como prisioneira do meu próprio paradigma, houve obviamente um estranhamento e porque não dizer certo incômodo. Incrível, mas todas as mulheres ali fugiam do tipo ideal que todos nós traçamos para lésbicas, o que em verdade me soou brilhante! Consegui controlar este estranhamento e até que agora acho tudo bem normal. Excetuando-se as vezes em que o pessoal começa com um papo de “somos todas companheiras de homossexualidade”, é claro... Tentei imaginar que alguma experiência boa o curso me traria, sem ser a militância por um movimento que não me pertence.
Não, o curso em si não é ruim. A proposta de desconstruir conceitos de gênero, dissipando pré-conceitos é ótima! Mas apesar do curso ser interessante, ter uma boa proposta, o que acontece na prática é outra coisa. Apoio totalmente a militância homossexual, porque afinal, se cada um não lutar por seus direitos, eu é que não vou sair da minha casa para fazê-lo. Mas discordo do conteúdo utópico que as pessoas dão aos seus projetos. Todos lá são adultos, cidadãos participantes, em dia com seus impostos (assim espero!), mas ainda assim sonhadores demais. Inclusão social é importante, necessária, mas sem fugirmos da realidade. E sem ficarmos sonhando também em mudar a realidade de uma hora pra outra, porque todas as experiências históricas nesse sentido se mostraram frustradas, e nos mostraram que isso é impossível.
Não consigo entender como propor educação infantil “multi-sexual” (este não foi o termo que eles usaram, mas como não me lembro, inventei um que o valha). A intenção do pessoal é educar as crianças ensinando a elas que existem sexualidades diversas. DISCORDO! Não vejo como colocar na cabeça de uma criança que o papai tem direito de ser gay, ou uma drag queen, ou que a mamãe te dar de presente uma outra mamãe sem problemas... Ainda não pensei quanto à adoção de crianças por gays, e até acho mesmo que eles podem ser ótimos pais. Mas quanto a essa coisa de “multisexualidade”... Acho que a infância é o período de conhecimento de regras, e não de libertinagem. Ai Jesus, tô sentindo que vão me acusar de preconceituosa! Mas vamos à explicação...
Acho que a identidade é construída ao longo do tempo, e é feita de descobertas pessoais. Ninguém nos diz do que gostar ou não em termos de música, literatura, artes, comidas ou qualquer outra coisa. Acho que também é assim com sexualidade. Excetuando-se poucos, nenhum gay nasce sabendo que gosta de homens, isso faz parte de experiências, experimentações. É assim que conhecemos o mundo, interagindo com ele! Não podemos simplesmente fazer do mundo da sexualidade uma cômoda, onde cada coisa nova que aparece colocamos em uma nova gavetinha. Todos podemos ser tudo, só depende do que queremos ou não experimentar, e de gostarmos ou não daquilo que experimentamos.
E justamente lá, onde a proposta é desmistificar, me parece que todos querem abrir gavetinhas e encerrar o indivíduo dentro delas. Se você é lésbica, você gosta de mulher e só; se você é gay, gosta de homens; se é drag, é viado; cross-dressing é coisa nova no pedaço; se é heterossexual, gosta do sexo oposto... Não é bem assim! Como dizer para uma criança que o viado existe e cobrar dela uma postura diante disso? Nenhuma criança vai saber optar por uma ou outra coisa... Realiza só seu filho chegando em casa e dizendo: “Mamãe, não quero mais ser astronauta, vi que ser drag queen é bem mais legal”... Isso vai criar, antes de uma democracia sexual, um mundo de pessoas oprimidas por suas escolhas baseadas em um total desconhecimento, por certa ingenuidade e desconhecimento infantis.
Vejo que daqui algum tempo o pessoal vai propor a exibição de um “Horário Sexual Gratuito”, na Fox Kids e no Nickelodeon, nos moldes do “Horário Eleitoral”, onde vai aparecer uma drag gritando: “Venha com o tio para este mundo de purpurina!!”; ou um gay dizendo: “Você sabia que gay significa feliz? Pois venha ser feliz e opte pelo que optei!”; ou ainda uma lésbica: “Você é menina e brinca de carrinho? Eu também!”. É certo que estes exemplos que eu dei correspondem só a tipos ideais bestas do senso (ou da falta de bom senso) comum.
Mas enfim, só acho que hoje eu sou heterossexual convicta, gosto de homem, não sinto atração por mulheres ou vontade de nada com nenhuma. Mas e amanhã? De repente eu cruzo com a Catherine Zeta Jones na esquina da minha casa e me apaixono por ela. Então acho mesmo é que a minha definição corresponde ao meu momento, e não à minha vida inteira; porque eu posso ser tudo o que eu quiser, transitar por todas estas gavetinhas, entrar e sair do armário conforme meu estado de espírito. Todos têm sim o direito de estar na “terceira margem do rio”*, mas educar uma criança envolve um pouco mais do que isso; envolve fazê-la conhecer a realidade em cima de percepções do que é concreto. E nada é mais abstrato do que a “terceira margem”! Percebê-la envolve conhecer mais acerca de si mesmo depois de absorver (por mínimo que seja) as dimensões do real. Ou seja, educar uma criança ensinando que a vida é feita de experiências e que o futuro vai dizer a ela tudo o que quiser é uma coisa, tentar liberar geral é outra. Então, que se fechem todas as gavetinhas... mas que se fechem vazias. Que todos sejamos o que queremos ser sem ter que determinar isso para ninguém!


“O aspecto trágico da vida está precisamente nessa lei a que o homem é forçado a obedecer, a lei que o obriga a ser um. Cada qual pode ser um, nenhum, cem mil, mas a escolha é um imperativo necessário.”
(Luigi Pirandello)

*coisa de Guimarães Rosa

14.11.06

"FUTURÍVEL (*)" - By Nívea Maria

Hoje de manhã, no trem, eu estava lendo a entrevista do cientista americano Raymond Kurzweil nas páginas amarelas da Veja. Ele é um entusiasta desse futuro cibernético que se anuncia. Eu confesso que senti arrepios só de ler o título ("Seremos todos cyborgs"); uma pessoa um tanto avessa à tecnologia e ligada às humanidades como eu tem, no mínimo, certa aversão a esses "futurismos". Mas resolvi vencer o embrulho no estômago, engoli a seco e segui em frente na minha leitura matinal.
Kurzweil prevê que, num futuro bem próximo, homens e máquinas se fundirão. Segundo ele, muito em breve a inteligência artificial superará a inteligência humana; o homem acoplará essa inteligência artificial à sua, ampliando assim a sua própria capacidade intelectiva. Seremos então, meio homens, meio máquinas. Minha primeira sensação foi de horror; mas percebi que não posso me esquivar de pensar que essa nova humanidade será uma realidade, e talvez dentro de pouco tempo. Se pensarmos que já estamos criando membros artificiais, que cardíacos vivem com marcapassos dentro do peito, que a medicina estética vem desenvolvendo e esculpindo novas "formas" humanas, podemos dizer que esse futuro já começou.
O que de fato me incomoda é o aparente reducionismo com que esses homens de ciência parecem tratar a condição humana. Se nos tempos de Darwin, Freud e tantos outros, o homem era um ser predominantemente biológico, nesses novos tempos, o homem é um ser tecnológico; parece estar se metamorfoseando na sua criação, as máquinas. Tento vislumbrar esse mundo novo apresentado pelo dr. Kurzweil, e fico me questionando: estará a criatura evoluindo em direção ao criador, ou será que o criador estará se rebaixando à sua própria criação? Acho que ambas as questões fazem sentido. Porém, mais estranho que imaginar que as máquinas podem ser mais inteligentes que os homens é constatar que nós estamos nos assemelhando cada vez mais a autômatos... se pensarmos no consumismo irracional que rege o comportamento das pessoas em nossa sociedade, vemos o quão maquinais estão os homens e suas relações. O triste é que essa "filosofia" consumista transcende as nossas relações com os objetos. Estamos sendo consumistas em nossas relações pessoais e até em nossas crenças.
Mas o que me consola é que tudo tem um limite. E o consumismo terá o seu, creio nisso. O planeta já não o suporta. Seremos obrigados a mudar nossos hábitos, nosso modo de viver, teremos que readaptar nossas necessidades materiais a uma nova realidade, por questão de sobrevivência; ou então estaremos extintos do planeta dentro de poucos séculos. Defendo aqui uma espécie de renascimento, um novo humanismo, menos hedonista, materialista, e mais espiritualista. O desenvolvimento da inteligência artificial provocará uma "crise de identidade", fazendo os homens se voltarem para a questão: qual o verdadeiro sentido de ser Humano? Tenderemos a nos voltar para a filosofia, as artes, a religião, todo esse mundo imponderável, caótico e genuinamente humano de idéias e valores.
Esse novo humanismo não prescinde das necessidades materiais. Não somos (ainda) seres etéreos. Mas elas estarão num plano secundário, no reino do automatismo. Sim, os robôs e as máquinas desempenharão um papel significativo nesse mundo novo, não se pode rejeitar isso... substituirão o homem em muitas de suas tarefas e atividades braçais. Sim, a economia será cada vez mais autônoma, regida pela "mão invisível" de Smith, cada vez menos dependente da política (socialistas e comunistas, torçam o nariz, mas essa é a tendência).
Nesse mundo novo que eu vislumbro a economia e a tecnologia estarão convivendo harmonicamente com a nova humanidade. Sim, porque a humanidade precisa e irá se reinventar. De certa forma, consigo "ver" esse mundo novo. Só ainda não tenho idéia de como será esse homem novo, em toda sua complexidade. Porque uma das principais (pra mim, é a principal) características do ser humano é a imprevisibilidade.
* Nome de uma música do meu querido Gil.

(em 13/11/2006)

7.11.06

"PÁGINAS DA VIDA" by Nívea Maria

Parafraseando o Manoel Carlos, grande cronista do cotidiano, porque hoje tive vontade de escrever sobre uma cena que eu vi. Tem algum tempo que eu não presto atenção nas pessoas, de tão encerrada nos meus próprios problemas e nas minhas questões. Desde que me entendo por gente, o meu maior interesse na vida é pelas pessoas. Sou uma fofoqueira nata! Talvez por isso eu tenha me interessado por antropologia, embora hoje saiba que essa não é bem a minha área. O meu interesse pelas pessoas já foi bem maior, hoje estou mais egocentrada. Mas eu lembro que quando era criancinha, costumava observar as pessoas; olhava fixamente para elas; a maioria se sentia incomodada; as crianças davam a língua.
Pois bem, estava eu hoje no ponto de ônibus, por volta das 13 horas, em frente ao Teatro Municipal, esperando o meu 393 rápido, quando chega um casalzinho jovem. Na verdade, eu mal tinha visto a menina, quem me chamou a atenção foi o menino, feioso de dar dó, esquisitão mesmo. O cara era alto, magrelo, fazia o tipo metaleiro, com um cabelo grande e louro esquisitíssimo, uma cara comprida, dentuço e cheio de espinhas. Feio como quase todos os moleques de 16 anos, e ainda um pouco mais. Parecia que tinha um ovo na boca.
Eu entrei no meu ônibus, eles entraram logo atrás de mim , e sentaram no banco à minha frente. Desde então não pude deixar de presenciar o dramalhão que se encenava naquele instante:
Eu estava distraída, pensando na vida, quando vi a menina dando um beijo no moleque feiosinho; mas, para minha surpresa, ele evitou. Fiquei bolada, até cogitei, hm, ele faz o tipo metaleiro mas de repente é viado; porém continuei na minha, olhando para a janela. Mas de vez em quando a curiosidade batia e eu dava uma espichada. Eles estavam calados, aquele climão; a menina estava virada para a janela, e eu vi que havia uma lágrima no rosto dela. Pronto, fiquei logo penalizada, me condolescendo com a garota... coitadinha, foi rejeitada, isso é terrível, sei bem como é... poxa, como um mocreiúdo daqueles pode rejeitar a menina???Rsssss... verdade, pensei bem assim... comecei a entrar no drama: será que eles já são namorados e ele quis terminar o relacionamento, ou será que ela pretendia iniciar o relacionamento, mas ele deu no pé? Fiquei com a segunda hipótese; pensei no quanto os homens podem ser covardes, não assumindo seus sentimentos, sempre durões, sempre orgulhosos... bateu o lado feminista: os homens são maus! Rsss! Comecei a lembrar de algumas situações que eu vivi, um pouco similares... estava já quase esquecendo o drama principal e adentrando no meu mundinho interior, quando voltei à realidade, ouvindo os soluços da garota. Gente, ela começou a chorar convulsivamente, tadinha!!! Eu morri de pena. O feiosinho, a princípio, ficou imóvel, o que me criou certa indignação; poxa, nem pra dar um abraço, dizer um sinto muito. Ficou caladinho. Além de mocreiúdo, não tem coração!!!
E ela não parava de chorar. Nesse momento, o ônibus inteiro estava de olho no casalzinho. Acho que no fundo quase todo mundo estava pensando exatamente como eu: como é que o feioso pode dar o fora na moreninha? Ela até que era bonitinha, principalmente perto dele. Também fazia o estilo roqueirinha, cabelão preto olhos pintados de preto, um pouco cheinha. Devia ter uns 15 anos, maior carinha de criança. E eu morrendo de pena dela... coitadinha, tão novinha e já sofrendo por amor!!! Nesse momento, eu comecei a falar mentalmente com a garota: que é isso, minha filha? Pare de chorar na frente dele!!! Não seja tão carente, não se faça de fraca!!! Você pode conseguir alguém melhor que esse mocreiúdo... e enquanto isso, a menina se aninhava no colo do seu amado, e no fim ele teve que abraçá-la. Ficaram um tempo assim, e eu voltei a me distrair com a viagem, lembrei que eu preciso estudar pra minha prova de libras, e comecei a cogitar sobre uma graduação, um politécnico desses aí da Estácio em libras. Não sou lá grandes coisas, mas se tiver força de vontade eu aprendo. E isso certamente é um diferencial. Inclusão social é algo que as empresas estão valorizando, e (glória a Deus!) é uma tendencia da sociedade moderna. Acho que pode ser um caminho pra mim, que sempre me senti atraída pelos "fracos e oprimidos".
Estava distraída, quando lembrei novamente do casalzinho, e vi que os dois estavam se beijando. Ai, que bonitinho! Nossa amiga venceu!!!! Amoleceu o coração do feioso. Só faltava a platéia aplaudir, rsss... acho que o choro convulsivo de nossa amiguinha foi fundamental. Com toda a dramaticidade típica das adolescentes apaixonadas, ela abriu seu coração (e abriu o berreiro!), se expôs, e conseguiu conquistar o seu amado. Pode até ter sido pela insistência, mas eu bem acho que ele também gostava dela, só estava com medo de reconhecer, comportamento tipicamente masculino. Assim como a mocinha, eu também já me declarei, e já levei o fora, algumas vezes. Mas não tive a humildade dela de mostrar toda a minha tristeza, assim, de uma forma tão contundente. Humildade é algo que as mulheres, de um modo geral têm, o orgulho está mais ligado ao comportamento masculino. É por isso que eu acho que fui homem na encarnação passada; sou orgulhosa demais...
Agora eles estavam conversando animadamente, ela estava bastante risonha.
Quando os dois desceram, o ônibus inteiro os acompanhou com os olhos. Acho que quase ninguém ficou indiferente àquele drama juvenil que teve um final feliz. A impressão que tive é que eles encenaram uma peça, um estória romantica, com muito sofrimento, mas onde no fim o amor venceu.
Em 06/11/2006